Em 5 de maio de 2018, Childish Gambino lançou um dos videoclipes mais impactantes da história da música pop.
"This Is America" chegou ao mundo durante uma apresentação no Saturday Night Live e, em questão de horas, dominou a internet — não apenas pela música, mas pela profusão de símbolos que Donald Glover e o diretor Hiro Murai embutiram em cada segundo da obra.
Oito anos depois, o clipe continua sendo estudado, debatido e compartilhado. Aqui estão os principais símbolos que fizeram de "This Is America" um documento cultural único:
1. A pose de Jim Crow
Desde as primeiras imagens, Childish Gambino assume uma postura corporal exagerada — peitoral estufado, olhos arregalados, expressão caricata — que remete diretamente às ilustrações racistas do Jim Crow, estereótipo do homem negro criado nos Estados Unidos no século XIX e que embasou leis segregacionistas por décadas. A escolha é deliberada: Glover incorpora o estereótipo para denunciá-lo.
2. O fuzilamento do guitarrista e o pano vermelho
Nos primeiros momentos, um músico toca violão tranquilamente. De repente, Glover o executa com um tiro na nuca. O detalhe mais chocante: a arma usada no assassinato é cuidadosamente enrolada em um pano vermelho e carregada com zelo por um assistente — enquanto o corpo é arrastado pelo chão sem nenhuma consideração. O símbolo é direto: nos EUA, armas recebem mais cuidado do que vidas negras.
3. O massacre do coral
Na cena mais brutalmente simbólica, Glover avança com uma metralhadora contra um coral gospel e os mata a todos. A referência é ao massacre de Charleston, ocorrido em junho de 2015, quando um homem branco entrou na Igreja Emanuel African Methodist Episcopal e assassinou nove fiéis negros durante um culto. Mais uma vez, a arma é recolhida com cuidado em pano vermelho.
4. A dança como distração
Enquanto Glover dança no primeiro plano, cenas de caos se desenrolam ao fundo: perseguições policiais, tumultos, cavaleiros. O primeiro plano é vibrante e colorido; o fundo é escuro e violento. A metáfora aponta para como o entretenimento — especialmente o protagonizado por artistas negros — é usado para distrair a sociedade americana da violência sistêmica que ocorre simultaneamente.
5. O cavalo branco
Em determinado momento, um cavalo branco cruza o fundo do quadro. A referência é ao Livro do Apocalipse: "E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o seu cavaleiro se chamava Morte." O animal simboliza a morte que paira sobre o cotidiano negro americano, invisível para quem está hipnotizado pelo espetáculo.
6. As crianças com celulares
As crianças que dançam ao lado de Glover seguram celulares e filmam tudo. Ao fundo, outras pessoas também filmam — não a dança, mas as cenas de violência. O clipe questiona o papel das redes sociais e do voyeurismo digital: documentar passou a substituir agir?
7. A coreografia Gwara Gwara
A dança executada por Glover é baseada no Gwara Gwara, um passo viral sul-africano que explodiu na internet em 2017. A inclusão conecta a experiência negra americana à diáspora africana global, ao mesmo tempo em que usa um elemento de alegria para contrastar com a brutalidade ao redor.
8. A perseguição final
Nos segundos finais, a iluminação muda radicalmente. Glover corre desesperado por um corredor escuro, perseguido por uma multidão. É o único momento em que a máscara cai: sob a performance, existe um homem negro em fuga. A cena remete ao medo ancestral e cotidiano que atravessa a vida negra nos Estados Unidos — e é a imagem mais honesta do clipe inteiro.