Tem uma verdade que ninguém da turma podia descobrir. O roqueiro de camiseta preta tinha "I Want It That Way" gravada na fita do walkman. O pagodeiro do colégio sabia toda a letra de "Complicated" e cantava com sotaque de subúrbio canadense. E aquele emo de franja na cara, dramático ao extremo, era capaz de levantar do chão pra dançar "Dança do Ventre". A adolescência foi feita de tribos, sim, mas também de fones de ouvido bem baixinho e CDs sem capa pra ninguém reconhecer.

O Vagalume reuniu 10 confissões geracionais. São músicas que viraram hino de uma tribo e prazer culpado de outra, e que provam que o gosto musical real raramente respeita uniforme.

1. O roqueiro que ouvia Backstreet Boys no walkman

A camiseta era do Iron Maiden, a jaqueta jeans tinha rasgo estratégico no joelho, e o discurso era de que pop teen "não era música de verdade". Mas, sozinho no quarto, com o fone bem grudado, "I Want It That Way" ganhava várias execuções seguidas. Aquele refrão fácil derrubava qualquer postura crítica.



2. O metaleiro que sabia toda a coreografia de Britney Spears

Cabelo comprido, patches do Slayer, conversa sobre Black Sabbath na hora do recreio. Mas, quando "...Baby One More Time" tocava na rádio do tio, era estranhamente difícil mudar de estação.



3. O punk de coturno que cantarolava Spice Girls

Cabelo arrepiado, alfinetes na jaqueta, fanzine debaixo do braço. O lema era "anarquia". Mas "Wannabe" passava no clipe da MTV e a vontade de gritar "if you wanna be my lover" era maior que o orgulho punk.



4. O headbanger old school que dançava *NSYNC

Discos do Metallica, pôsteres do Iron Maiden, óculos escuros no ônibus. Tudo muito sério. Até "Bye Bye Bye" entrar na MTV com aquela coreografia de marionete, e o headbanger começar a cabecear no ritmo, "só pra zoar".



5. O garoto do rock pesado que adorava Aqua

Colete do Sepultura, tatuagem caseira de caneta, discurso de que "música de verdade tem peso". E aí "Barbie Girl" tocava em festa de aniversário e o headbanger sabia de cor.



6. O skatista emo que chorava com Bruno e Marrone

All Star surrado, jeans rasgado, playlist cheia de My Chemical Romance. Mas em viagem de família, no rádio do carro do pai, "Dormi na Praça" começava e o skatista sentia uma lágrima discreta escorrer. Sertanejo romântico tem um poder universal que nenhum visual contradiz.



7. O funkeiro de quebrada que curtia Bon Jovi

Boné de aba reta, corrente de prata, discurso de "só ouço funk de raiz". Mas em casamento de tia, quando "Livin' On A Prayer" entrava no setlist do DJ, o funkeiro era o primeiro a levantar a mão pro refrão. Aquele "whoa, livin' on a prayer" é forte demais pra resistir.



8. O pagodeiro intransigente que decorou Avril Lavigne

Camisa polo, samba no rádio, intransigência total contra "rockzinho de menina". Mas "Complicated" passava na Jovem Pan e o pagodeiro pego desprevenido sabia a letra inteira, cantando "why'd you have to go and make things so complicated" com sotaque canadense improvisado.



9. O emo dramático que se rendia ao É O Tchan

Franja na cara, MSN com nick em vermelho-sangue, blog com poesia de coração partido. Toda essa estética desabava em festa junina quando "Dança do Ventre" tocava e o emo era flagrado rebolando. Da depressão pro forró em 0,5 segundo. Vale redescobrir aquela bateria sambada, ainda detona.



10. O sertanejo raiz que se emocionava com Restart

Bota, fivela, chapéu, modão na caixa de som da picape. Mas no quarto, com o monitor escondendo a tela, "Recomeçar" virava trilha sonora de crise existencial de 15 anos. A teen pop colorida dos anos 2010 sabotou muita fortaleza sertaneja, e a banda paulista emplacou o hit numa cena dominada por axé e sertanejo universitário, um feito que vale relembrar.