Pela primeira vez, Jão abriu o jogo sobre o período mais difícil da sua vida. Em entrevista exclusiva à Billboard Brasil, o cantor comentou a reclusão que se seguiu à morte do pai e desabafou sobre a exposição do luto. "A coisa que mais senti é que odeio que sintam pena de mim. Eu tenho um grande pavor sobre isso", disse.
(Foto: Reprodução Instagram)

O ano de 2025 já havia começado com o anúncio de uma pausa na carreira, a primeira desde a estreia com "Lobos", em 2018. O motivo, segundo o artista, era a falta de tempo para si mesmo. O descanso, porém, foi atravessado por uma tragédia: no dia 3 de junho de 2025, Carlos Alberto Balbino, pai do cantor, morreu vítima de uma arritmia cardíaca.

"É bem complicado porque a gente não sabe exatamente como e por que aconteceu. É um assunto muito delicado para todos nós", contou o cantor, nascido há 31 anos em Américo Brasiliense, no interior de São Paulo.

Naquele período de reclusão, Jão foi fotografado de barba e fora de forma, o que gerou repercussão sobre alguém que sempre agiu com discrição. "Deve ser algum lugar da infância que eu tive que provar minha coragem ou iria conseguir fazer as coisas. Quando essas fotos saíram, eu realmente li muito pouco assim, eu realmente não quis saber", prosseguiu.




O pai como fio condutor do disco

A figura do pai funciona como arco narrativo de "Memórias Póstumas", novo álbum que chegou às plataformas na noite de domingo (26). Antes disso, o trabalho foi apresentado em uma audição no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, cujos beats chegaram a se misturar aos sons da ópera "Tristão e Isolda", encenada no Theatro Municipal.

Balbino aparece citado na canção de abertura, "Catedral", e na faixa que dá título ao disco. Em ambas, além de "O Amor", é possível escutar a própria voz do pai do cantor, registrada em áudios.





"Nunca mais vou ouvir essas músicas", admitiu Jão sobre as faixas que trazem a voz do pai. "Foi uma maneira que encontrei para honrar meu pai, que era meu maior incentivador."

Das catorze faixas do álbum, treze foram compostas por Jão ao lado de Pedro Tófani, parceiro de trabalho e de vida. "O disco traz muito da nossa vida, nasceu para ser um registro da nossa vida. Não tinha como outra pessoa escrever junto com a gente", explicou o cantor.

A exceção é "João", assinada apenas por Tófani e descrita como uma declaração de amor. "Ela foi mostrada num pedaço de papel e o que você escuta sou eu tentando criar uma melodia que se encaixasse na letra. É um quase combinado não verbal nosso de que o que está ali na música, a gente conversa na música", disse o artista.

Cotidiano e retorno aos palcos

Conhecido por transformar o dia a dia em letra, Jão diz ter buscado uma honestidade ainda maior desta vez. "Neste álbum eu estava obcecado em falar as coisas como elas realmente são. Era um compromisso meu de poder ser honesto e cru nas letras", afirmou. Musicalmente, o trabalho passeia por referências que vão da música indiana ao mellotron, instrumento associado ao rock progressivo.

O próximo capítulo é a volta ao palco. Como já mostramos quando Jão anunciou a turnê de "Memórias Póstumas", o cantor se apresenta em 25 de setembro no Nubank Parque, em São Paulo. "Teremos um palco de 360 graus no meio do estádio, que era uma coisa que eu queria muito fazer. É um novo desafio para mim", encerrou.